Fazedorismo

31 de julho de 2026 · 8 min de leitura

O que realmente importa?

Para por um segundo antes de continuar lendo.

Imagina que eu te desse cem milhões de reais agora. Hoje, sem pegadinha, caindo na conta enquanto você lê isso.

O que mudaria na sua vida?

Provavelmente uma casa maior.Um carro melhor.Aquela viagem que você adia há anos.O fim daquele aperto no peito todo dia 10.

Muita coisa mudaria. Seria mentira dizer que não.

Mas repara no que continuaria exatamente igual.

Você ainda precisaria dormir hoje à noite.Ainda ia sentir sede no meio da tarde.Ainda ia sentir fome na hora do almoço.Ainda ia querer estar perto de quem você ama, rindo de alguma bobagem que ninguém de fora entenderia.

É estranho pensar nisso.

Porque a gente passa a vida inteira correndo atrás de dinheiro pra melhorar coisas que, no fundo, nunca deixam de ser as mesmas.

O rico dorme.O pobre também.

O rico come.O pobre também.

O rico guarda lembranças.O pobre também.

A diferença quase nunca está na existência dessas coisas.

Está na intensidade.Na possibilidade.Na qualidade.

Um cara janta num restaurante premiado em Paris.Outro come arroz, feijão e ovo frito na cozinha de casa, com a janela aberta.Os dois jantaram.

Um passa as férias nas Maldivas.Outro pega o carro, roda até o rio mais perto e passa o domingo inteiro na beira do barranco, com o pé n’água e um tererê gelado do lado.Os dois viveram um dia que não volta.

Um dorme num colchão de cinquenta mil reais.Outro numa cama simples de madeira que o avô fez.Os dois fecharam os olhos.

Isso não quer dizer que dinheiro não importa. Seria burrice dizer isso.

O dinheiro amplia possibilidade.Reduz dificuldade.Compra conforto.Compra tempo.Compra sossego.

Mas existe um abismo entre comprar condição e alcançar excelência.

Você pode comprar o melhor colchão do mundo e continuar dormindo mal.Pode encher a geladeira dos alimentos mais caros do mercado e ainda assim se alimentar pior do que quem planta parte do que come.Pode dar a volta no mundo e nunca estar de verdade em lugar nenhum.

É aqui que a pergunta muda de forma.

Ela deixa de ser “quanto eu preciso ganhar?”

E vira:

Estou fazendo o melhor possível com aquilo que, querendo ou não, vai fazer parte de todos os meus dias?

Porque você vai comer de qualquer jeito.Vai dormir de qualquer jeito.Vai viver seus dias de qualquer jeito.

A única escolha que realmente sobra é a qualidade disso.

E talvez aqui esteja um dos maiores golpes que a gente aplica em si mesmo.

A gente inventa um futuro perfeito.

“Quando eu ganhar mais...”“Quando eu tiver a casa própria...”“Quando eu trocar de carro...”“Quando o projeto der certo...”“Quando eu tiver mais tempo...”

Nesse futuro imaginário, você vira outra pessoa.

Você finalmente cozinha.Aprende sobre comida de verdade.Treina todo dia.Lê os livros que estão juntando poeira.Faz aquele curso que você adia há três anos.Dorme cedo.Toca aquele violão que tá encostado no canto.Passa mais tempo com a família.Aprende um idioma novo.Vira, enfim, a pessoa que você sempre imaginou que ia ser.

Mas tem uma pergunta desconfortável no meio disso.

Por que você faria tudo isso amanhã, se hoje você não faz nem o mínimo com o que já tem na mão?

Se hoje tem arroz, feijão, ovo e uma panela, por que acreditar que um salário maior é que vai te fazer cozinhar?

Se hoje dá pra deitar uma hora mais cedo e você não deita, por que um colchão mais caro resolveria isso?

Se hoje tem um rio, uma trilha, uma praça ou uma estrada de terra a dez minutos de casa que você nunca foi, por que uma viagem internacional seria, sozinha, transformadora?

Talvez o problema nunca tenha sido falta de dinheiro.Talvez tenha sido esperar que o dinheiro fizesse as escolhas que sempre dependeram só de você.

E vou te falar de um erro que eu vejo em quem constrói alguma coisa. Talvez você se reconheça.

A gente coloca a vida inteira em espera esperando o projeto “dar certo”.

Como se a disciplina estivesse escondida dentro do próximo salário.Como se o conhecimento estivesse esperando a próxima promoção.Como se os bons hábitos fossem o brinde que chega junto com quem ganha mais.

Quase nunca é assim.

A gente carrega os próprios hábitos no bagageiro pra onde for.

Quem aprende a cozinhar com pouco vai continuar cozinhando quando puder comprar o melhor corte.Quem aprende a cuidar do próprio sono vai valorizar o descanso a vida toda.Quem aprende a aproveitar um domingo simples vai aproveitar ainda mais o dia do outro lado do mundo.

O dinheiro amplia quem você já é. Ele raramente transforma quem você nunca foi.

A disciplina não é o prêmio de quem enriqueceu. É o ingresso. E o preço é o mesmo pra todo mundo, rico ou pobre: fazer, hoje, antes de ter vontade.

Repara que dá pra ter tudo e ainda assim viver mal.

Você pode contratar um chef e continuar comendo mal.

Pode comprar orgânico, carne nobre, os ingredientes mais caros da prateleira, e mesmo assim lotar o armário de ultraprocessado, porque nunca aprendeu o que é comida de verdade.

E dá pra ter pouco e viver com uma fartura que dinheiro nenhum fabrica.

Uma família no interior, com uma horta no fundo do quintal, umas galinhas e a fruta da estação, come melhor do que muita gente que torra mil reais por semana no mercado.

Ela sabe de onde veio o tomate.Sabe o dia que a manga ficou no ponto.Conhece o cheiro da terra depois da chuva.Colhe o alimento poucas horas antes de botar no prato.Passa o café coado no fogão, não no cápsula.Faz o churrasco no disco, com a lenha que ela mesma juntou.

Tem uma riqueza aí que não tá à venda em lugar nenhum.

Com o sono é a mesma história.

Você pode investir uma fortuna no melhor colchão do mundo.

Travesseiro importado.Ar-condicionado, blackout, monitor de sono, suplemento pra dormir.

E continuar levando a ansiedade pra cama toda noite.

Enquanto o outro, depois de um dia honesto de trabalho, deita, fecha os olhos e apaga.

Porque descanso não é um produto que você compra.É a consequência de como você viveu o dia.

E as experiências seguem a mesma lógica.

Tem gente que conhece cinquenta países e atravessou todos olhando pra tela do celular.

E tem quem nunca saiu do próprio estado, mas ainda lembra do cheiro do rio na infância, da pescaria com o pai no fim de tarde, do café da avó no fogão a lenha, do domingo inteiro de banho de rio e das músicas de raiz no violão até a noite cair.

Experiência não é o lugar.É a forma como você esteve ali.

E aqui vai a provocação mais dura: você não está competindo com o milionário que janta em Paris.

Você está competindo com a versão sua que ainda daria tempo de existir hoje. A que podia ter feito a comida em vez de pedir. A que podia ter ido no rio em vez de rolar o feed vendo a viagem dos outros. A que podia ter tocado o violão em vez de assistir mais um vídeo.

Cada vez que você paga pra pular uma experiência, seja o delivery, o resumo ou a viagem pela telinha, você terceiriza um pedaço da própria vida. E ninguém devolve.

Tem um padrão triste nisso tudo.

A gente vive esperando a vida começar.

Depois da promoção.Depois da casa própria.Depois do carro novo.Depois do casamento.Depois dos filhos.Depois que o projeto vingar.Depois da aposentadoria.

Sempre tem um “depois”.

Mas a vida não acontece depois.

Ela acontece agora.

Enquanto você almoça.Enquanto passa o café.Enquanto conversa com alguém que um dia não vai mais estar aqui.Enquanto dorme.Enquanto caminha.Enquanto olha um pôr do sol que talvez você nem tenha percebido, porque estava ocupado demais pensando no próximo.

Faz uma conta comigo.

Você vai comer mais de oitenta mil refeições nessa vida.Vai passar cerca de um terço dela dormindo.E vai construir as suas melhores lembranças em momentos que hoje parecem banais demais pra receber atenção.

Só que essas não são médias de estatística. São as suas refeições. As suas noites. E elas têm fim.

Os verões que ainda restam com quem te criou, dá pra contar. Os domingos de rio com os amigos de infância, também. A conta é menor do que a gente finge que é.

Se essas são as coisas que vão ocupar quase toda a sua existência, por que elas recebem tão pouco cuidado?

É estranho perceber que a gente gasta quase toda a energia tentando melhorar o que acontece poucas vezes na vida, e quase nenhuma no que acontece todo santo dia.

Talvez a verdadeira riqueza nunca tenha sido fazer coisa extraordinária.

Talvez ela esteja em aprender a fazer extraordinariamente bem aquilo que todo mundo, rico ou pobre, vai fazer de qualquer jeito todos os dias.

Comer.Dormir.Estar presente.

É por isso que este projeto existe.

Não pra te ensinar a gastar mais.Mas pra aprender a viver melhor com o que você já tem na mão hoje.

A comer melhor.A dormir melhor.A estar inteiro onde você está.

E a entender de uma vez que a vida não começa quando tudo estiver perfeito.

Ela já começou. Faz tempo.

A pergunta é se você tá presente pra ela.