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Fazedorismo

· 7 min de leitura

Eu faria isso se fosse a única pessoa na Terra?

Resumo

O teste da única pessoa na Terra é um exercício mental de decisão: você imagina que é o último ser humano vivo e pergunta se ainda faria determinada escolha. O que sobrevive à pergunta nasceu de um desejo seu. O que evapora provavelmente existia para comunicar algo aos outros.

Por Fernando Lima

Existe um exercício mental que mudou a forma como eu tomo algumas decisões.

E eu digo algumas de propósito.

Se eu aplicasse isso em tudo, eu não faria quase nada. Não trabalharia. Não pagaria conta. Não responderia e-mail. Não iria ao dentista. Boa parte da vida adulta só existe porque existem outras pessoas, e está tudo bem assim.

Então eu comecei a usar esse exercício só nas decisões grandes. As caras. As difíceis de desfazer. As que você carrega por anos. Nessas, ele mudou muita coisa.

Imagine que você acorda amanhã e é a única pessoa viva na Terra.

As cidades continuam de pé. A comida está lá. As ferramentas estão lá.Só não existe mais ninguém.

Ninguém para impressionar.Ninguém para julgar.Ninguém para elogiar.Ninguém para competir.Ninguém para contar.

Agora pegue qualquer decisão da sua vida e faça uma única pergunta:

“Eu ainda faria isso se fosse a única pessoa na Terra?”

O que sobrevive

Você cortaria o cabelo?Provavelmente. Em algum momento ele incomoda, atrapalha, dá trabalho. Só que você cortaria com uma tesoura, sem espelho, e estaria tudo bem.

Você treinaria?

Eu treinaria. Porque eu gosto.

Mas provavelmente não como eu treino hoje. Sobraria só o que é útil: força, fôlego, aguentar o dia. Nada de estética. E mesmo assim eu treinaria, porque ser forte é bom mesmo quando ninguém está olhando.

Você continuaria cozinhando bem?Provavelmente. Sabor não precisa de plateia.

Você pescaria?Aprenderia um instrumento sem nunca tocar para ninguém?Consertaria o telhado com capricho, mesmo sem visita para ver?

Muita coisa continua fazendo sentido. E esse é o detalhe mais interessante do exercício: a lista do que sobrevive não é pequena.

O que evapora

Agora vá para o outro lado. E aqui começa a incomodar.

Você compraria um relógio caro?Ou só um que funcione?

Você faria questão daquele carro específico?Ou de um veículo que aguenta estrada de chão?

Você postaria a foto?

Até aí é fácil. Todo mundo concorda que consumo tem um tanto de vaidade.

Agora as difíceis.

Você faria uma tatuagem?Sozinho no planeta. Ninguém para perguntar o significado. Ninguém para ver. Só você, a tinta e a agulha.

Você continuaria pintando o cabelo, fazendo a barba do jeito exato que faz, fazendo as unhas?

Você ainda ia querer bíceps e tanquinho?Ou só um corpo que aguenta o dia?

Você manteria aquela estante cheia de livros que nunca abriu?

Você citaria os mesmos filmes e as mesmas músicas favoritas?

Você defenderia com a mesma energia aquela opinião que você defende no grupo?

Você faria a mesma faculdade?

Você ainda se importaria com o cargo escrito no crachá?

Talvez não.

E não é uma pergunta confortável, porque algumas dessas coisas você provavelmente chama de personalidade.

Eu fiz o teste com tatuagem e a resposta veio rápida: eu não faria. Sozinho no planeta, com tinta, agulha e todo o tempo do mundo, eu não gastaria uma tarde marcando a própria pele. Não é crítica a quem faz. É só o meu resultado. E o valor do exercício está exatamente aí: a resposta é sua, não minha.

Provavelmente algumas das suas respostas vão te surpreender. Provavelmente algumas você vai preferir não responder.

E é aí que a pergunta vira uma métrica.

Se você faria algo mesmo sendo a única pessoa no planeta, provavelmente esse desejo nasceu dentro de você. Se não faria, é possível que aquela decisão exista mais para comunicar alguma coisa aos outros do que para satisfazer você.

Cuidado com a leitura preguiçosa

Isso não é um convite para viver ignorando as pessoas.

Somos seres sociais. Boa parte do que há de melhor na vida só existe porque tem outra pessoa do outro lado.

Você faz um presente para quem ama.Você se veste de forma adequada para um velório.Você chega no horário.Você aprende a escrever melhor para ser entendido.Você cuida da aparência por respeito a quem convive com você.Você aprende a ouvir.Você ajuda alguém que nunca vai poder retribuir.

Nada disso passaria no teste. E nada disso é vaidade.

Então vale separar duas coisas que parecem iguais e não são:

Fazer pelos outros.E fazer para os outros verem.

Cozinhar para um amigo é a primeira.Fotografar o prato antes é a segunda.

Dar o presente é a primeira.Deixar escapar quanto custou é a segunda.

O teste não tira as pessoas da sua vida. Ele separa o afeto da plateia.

A armadilha do avesso

Existe uma versão disfarçada do mesmo problema, e ela é bem mais difícil de enxergar, porque parece o oposto.

É a pessoa que faz questão de não seguir moda nenhuma.Que não usa marca, e faz questão de avisar.Que despreza rede social publicamente.Que precisa que você saiba que ela é diferente.

Isso continua sendo busca por aprovação. Só mudou de público.

Ser dirigido pela opinião dos outros ao contrário ainda é ser dirigido pela opinião dos outros.

Onde isso realmente importa

Como eu falei lá no começo: não dá para usar isso em tudo, e nem deve.

Não vale gastar essa pergunta na escolha da camiseta. Nem no e-mail de segunda-feira. Nem no trabalho que paga suas contas hoje.

Ela vale nas decisões caras e difíceis de desfazer:

A profissão que você vai exercer por trinta anos.A cidade onde você vai morar.A casa que você vai financiar por vinte.O curso que você vai fazer.O negócio que você vai abrir.Como você vai gastar seus fins de semana pelos próximos cinco anos.

São as decisões em que o custo de estar performando é a sua vida inteira.

O problema nunca é uma decisão. É o padrão.

Comprar um carro bonito porque você gosta de carro bonito não é problema nenhum.

O problema começa quando quase nenhuma decisão é sua.

Quando você escolhe a profissão pelo status.Compra para parecer bem-sucedido.Viaja para mostrar que viajou.Treina só para ser admirado.Mora num lugar que te sufoca porque é o endereço certo.E passa a vida negociando aprovação com gente que mal pensa em você.

A pergunta “eu faria isso se fosse a única pessoa na Terra?” não serve para decidir tudo.

Ela serve para revelar quem está dirigindo.

Você?Ou a necessidade de ser aceito?

Quanto mais vezes a resposta for “eu faria mesmo assim”, maior a chance de você estar construindo uma vida que você realmente quer viver, e não uma que só parece boa vista de fora.